13º à 18º Dia - Malargüe - 16 à 21/01/2025




Prólogo: 

O "Milagre dos Andes" refere-se ao trágico acidente ocorrido em 13 de outubro de 1972, envolvendo o voo 571 da Força Aérea Uruguaia. O avião, que transportava 45 pessoas, incluindo o time de rugby Old Christians Club e seus familiares, caiu na Cordilheira dos Andes em condições climáticas extremas.

Inicialmente, 33 passageiros sobreviveram ao impacto, mas enfrentaram desafios imensos a mais de 3.500 metros de altitude, como o frio intenso, a falta de alimentos e o isolamento. Em um momento crítico, eles decidiram consumir os corpos dos falecidos para sobreviver, já que não havia vegetação ou animais disponíveis para caça.

No dia 29 de outubro, uma avalanche atingiu o local, resultando em mais oito mortes e enterrando a fuselagem do avião sob a neve. Sem esperanças de resgate imediato, dois sobreviventes, Nando Parrado e Roberto Canessa, decidiram procurar ajuda. Em 12 de dezembro, eles partiram em uma jornada de dez dias pelas montanhas até encontrarem Sergio Catalán, um pastor chileno, que alertou as autoridades.

O resgate dos 16 sobreviventes restantes aconteceu em 22 de dezembro, após 72 dias de luta pela vida. A experiência desses sobreviventes se tornou um símbolo de coragem e resistência


Quinta-Feira - 16/01/2025

Preparativos

No dia anterior, após conhecer pessoalmente Juan, proprietário da Valle Verde Expedições e nosso guia para o trekking ao Vale das Lágrimas, e tirar algumas dúvidas, tínhamos hoje, o dia antes do início da aventura, para providenciar o que deveríamos levar, descansar e nos preparar mentalmente para o desafio que nos aguardava. Não tínhamos ideia do que seria.

Caminhamos pela cidade em busca de alguns itens que ainda nos faltavam, especialmente para Artur, como alpargatas, um cinto para segurar a calça que usaria, que era da mãe dele, e manteiga de cacau. Quanto a mim, precisava especialmente de uma fita ortopédica (por falta de outro nome) para afixar na lombar, onde dias antes, em Zapala, machuquei-me ao recolher a pesada mangueira d'água e forçar a lombar de maneira equivocada. Aliás, essa dor, que não era insignificante, estava me deixando bastante preocupado. Afinal, não estávamos indo para um passeio no parque. Seriam 60 km com terreno irregular, subidas e descidas, em três dias de trekking. Mesmo assim, eu não imaginava ainda o quão duro seria. O dia passou voando.

A noite na pousada de Juan, cuidada pela Sra. Laura, sua irmã, e um ser humano incrível, conhecemos nossos companheiros de aventura, Bruno e Jorge, respectivamente Uruguaio e Argentino, em um saborosíssimo jantar feito por Laura, que viemos a saber depois, era Chef de cozinha também. A anfitriã Laura, viúva, curtia o que importava da vida e percebia-se imensa sabedoria em suas palavras.








Sexta-Feira - 17/01/2025

Inicia a Aventura

No horário combinado, Juan, nosso guia, chegava ao camping para nos pegar. Iniciava-se a aventura a que nos propusemos, de 3 dias, muita caminhada, no coração dos Andes, em busca dos restos do avião uruguaio e de cumprir um antigo desejo de chegar a este ponto, quando ainda em 2007, viajava virtualmente pelos mapas físicos e digitais, pesquisando o suposto local da queda e da sobrevivência. Tudo no mapa se mostrava fácil, próximo e viável, porém a realidade nos apresentava outro cenário. Nesse período, Adelaide e eu planejávamos as primeiras viagens de moto para o sul de nosso continente, no projeto que chamamos de "Álvaro e Adelaide no Fim do Mundo". Embarcados na sua Pickup Hilux, ainda pegamos os outros dois componentes da equipe que seria conduzida pela Valle Verde Expedições, Jorge e Bruno, ambos, assim como eu, interessados na história da tragédia ou milagre. A cada história contada por Juan, somada às já conhecidas por conta das leituras feitas, maior era minha convicção de que o acontecido, era na verdade, um milagre.

Nosso percurso de veículo era de 133 km, sendo 63 km de estrada de Rípio, já no coração dos Andes, no vale do Rio Atuel, margeando o rio de mesmo nome. Chegamos finalmente, após 3 horas de deslocamento, ao Acampamento El Índio, de propriedade da Valle Verde. Ali, um almoço de sanduíche com "milanesa" nos abastecia para o que estaria por vir. Após, com as mochilas incrementadas de laranjas, maçãs e biscoitos, e de posse dos recém-inaugurados bastões de caminhada, iniciamos nosso trekking, deixando os companheiros cavaleiros para trás, pois sairiam algum tempo depois. O vento já no trajeto inicial era desafiador, especialmente para Artur, que, por conta da jaqueta corta-vento que tinha, de tamanho maior que ele, na verdade fazia o efeito de paraquedas, dificultando ainda mais sua caminhada. E ela seria longa. Desde o início, preocupava-me em relação à resistência de Artur e ao meu machucado nas costas/quadril, somados ao nosso talvez despreparo. Logo chegamos ao ponto de travessia do Rio Atuel. Trocamos as botas de caminhada (a minha, já amaciada de EPI) por alpargatas e atravessamos os vários passos do rio, em alguns locais com forte correnteza e água nas coxas. No degelo, este vale é tomado de água e o rio alcança a largura de 3 quilômetros. Nesta fase, ele ganha vários braços na sua margem norte, porém somam também uma boa largura.

Atravessamos e seguimos a caminhada em terreno plano, até iniciar a subida. Ali, outro grupo a cavalo se preparava para também subir. Iniciamos a nossa subida, para então logo eles nos passarem. Nestes momentos, tínhamos que dar espaço na trilha/sendero. Avançamos a passos quase lentos, e via ali o cuidado de Alexis com a administração do esforço, especialmente de Artur. Para mim, a caminhada começava a se apresentar dura, e me preocupava com Artur. No caminho, a paisagem deslumbrante mas pouco amigável dos Andes me capturava, mas não podíamos contemplar. A missão era avançar, pois tínhamos 15 quilômetros pela frente. A subida era interminável e as trilhas da montanha se escondiam do nosso ponto de vista. Parávamos nos córregos para reabastecer de água: limpa, cristalina, gelada e pura da montanha e do degelo. Logo nossos amigos a cavalo nos passam e o arrependimento e dúvida por não ter escolhido esta modalidade tomaram conta de minha mente. Artur já não falava, de tão exausto que estava. Não chegaria ao seu destino, sem ser carregado.

Em um ponto do caminho, um rio para atravessarmos. Curto, mas caudaloso e mediamente profundo (até quase a cintura). Neste ponto reencontramos nossos amigos, e ali, os cavalos foram usados para nos atravessar. A declividade para acesso ao rio em cima do cavalo me apavorou. Fiquei imaginando a experiência nos locais onde a trilha era estreita e ao lado de desfiladeiros, inúmeros que já havíamos passado. Continuamos por mais um bom trecho, sempre em aclive, e longe ainda do nosso acampamento. Artur me preocupava. Já pensava em abordar com Alexis a possibilidade de enviar um cavalo e cavaleiro para Artur, quando então ele, pelo rádio, recebeu a informação de que o guia Juan enviaria um cavaleiro para pegá-lo. Isso foi um alívio para mim e dali em diante a jornada ficou mais leve. Meu esgotamento não era só físico. Tinha também um tanto de peso da preocupação com ele que carregava em meu espírito. Seguimos nosso percurso, e logo chegou nosso cavaleiro. Artur seguiu na garupa e seguimos eu e Alexis caminhando, agora mais leves. Muito ainda tínhamos pela frente, e o acampamento, escondido entre um rio e um pequeno aclive, só se mostrou nos metros finais da caminhada. Quinze quilômetros duros do primeiro dia foram vencidos. Artur já na barraca principal com nossos amigos descansavam e se aqueciam com chá e café. Foi um alívio a chegada. O sol já se escondia por detrás das imensas montanhas dos Andes e o vale onde se localizava o acampamento já mostrava o ar gelado que indicava como seria a noite.

O acampamento estava localizado em um lugar paradisíaco, só visto em filmes. Ao lado de um rio, em meio a uma vegetação verde, rodeado por montanhas de neve e diversas colorações. Artur, já instalado em nossa barraca, fez as honras e me instruiu sobre o local e os detalhes. À noite, reunidos na barraca de cozinha e jantar, Juan preparava o jantar, uma espécie de carreteiro com diversos ingredientes e especiarias, feito em um fogareiro potente e uma grande panela. Ali ouvimos algumas histórias de Juan sobre sua atividade e teorias sobre o acidente e a vida dos sobreviventes nos 72 dias de prisão no gelo eterno da montanha. Nos recolhemos na barraca de chão empoeirado, encolhidos nos sacos de dormir de -15 °C. A noite foi agitada e de pouco sono.






















Sábado - 18/01/2025

A subida da Montanha

A noite foi quase em claro. Estava ansioso e preocupado com a subida do dia seguinte. Muitas dúvidas sobre minha capacidade de aguentar a intensidade, pois os 15 km iniciais seriam apenas de subida, muito mais dura e inclinada que a do dia anterior. Se para mim já havia sido bastante desgastante neste primeiro dia, como seria o seguinte? O desconforto do saco de dormir, a preocupação com Artur, que enfrentaria imensos desfiladeiros a cavalo, além das dúvidas sobre minha capacidade, fizeram com que eu tivesse uma noite insone.

Na manhã gelada, os preparativos incluíam escovar os dentes, usar o sanitário engenhosamente instalado com água desviada e corrente da montanha e uma fossa natural para absorver a matéria orgânica. O desjejum foi à base de bolachas, chá quente e café de "saquinho", parecido com chá — uma versão comum na Argentina e bem saborosa. Tudo isso em uma manhã gelada, que nos desconfortava, mas também trazia ingredientes interessantes à vivência.

Despedi-me do Artur, que começaria a cavalgada mais tarde, e atravessamos eu e meu pouco falante guia Alexis os braços do rio, ao lado do acampamento, a cavalo, guiados pelo "gaúcho" cavaleiro. Da outra margem, iniciamos a "escalada". Ânimo renovado, sem mais o ritmo do Artur nem o peso da preocupação com sua condição física, seguíamos em bom ritmo, ditado pelo guia, que logo percebi, gerenciava muito bem a velocidade, pois sabia que mais adiante necessitaríamos de energia e força para a angulação absurda da subida dos 5 km finais. A totalidade dos 15 km, até a Cruz dos Andes, no local do acidente, era de subida constante, e os 5 km finais, de intensa verticalidade.

Chegamos ao Rio das Lágrimas, que dá nome ao vale, e ali Artur e nossos companheiros nos alcançaram. Sincronia necessária, pois não havia outra forma de atravessar o rio caudaloso que não fosse a cavalo. Eles fizeram essa travessia, e retornaram para os cavaleiros definitivos, entre eles o Artur, que junto com Jorge eram conduzidos por Juan. Somente o uruguaio Bruno cavalgava sozinho. Continuamos nossa subida em ritmo adequado e gerenciado, e me sentia muito bem, já confiante de que chegaria ao topo. A partir deste ponto, a inclinação ficou severa e começamos a ultrapassar outros caminhantes de outros grupos. Caminhantes eram raros. A paisagem, como sempre, surreal e superlativa. O Sendero foi ficando estreito e encravado na montanha. Os desfiladeiros eram imensos, e me admirava a destreza dos cavalos nesse terreno. Eu usava o apoio dos bastões, mantendo sempre três pontos ancorados no chão. À medida que subíamos, o ar rarefeito me deixava mais cansado. Os passos eram curtíssimos, não maiores que 30 centímetros, e agora passavam a ser negociados. Lembrava a cada passo do relato de Nando Parrado em seu livro "Milagre nos Andes", nas horas finais, antes de encontrar Sergio Catalán, tirando forças e o necessário fio de resistência não se sabe de onde, pois de sua condição física há muito não possuía. Nando negociava também com sua mente e espírito, cada passinho de "tartaruga".

O fato é que esta subida, que agora empreendia, era também mais do que um desafio físico: era um grande e contundente desafio mental e emocional. O topo e o destino se avistavam de muito longe e, somente apurando a visão, enxergávamos os pontinhos pequenos dos cavalos, longe de nós e longe do local que tentávamos alcançar. O nosso destino custava a chegar e o cansaço e o esgotamento aumentavam. Agora, as paradas para fôlego eram mais frequentes: a cada 10 metros, ou menos, era necessário parar, descansar e recuperar o fôlego, e uma sensação desconfortável de leve mal-estar já se fazia presente. Finalmente, alcançamos um platô de pedras, último trecho até a famosa cruz de 51 anos, que marcava o local dos restos mortais de quem pereceu no trágico acidente. Enfim, chegamos e essa chegada me energizou. Lá estavam nossos companheiros e outros grupos, recompondo-se.

Então fomos conhecer a Cruz, na crista do único local que não acumula a densa neve do glaciar da montanha, pois está exposta e assolada pelos fortes ventos da cordilheira. Abaixo, à direita dessa crista, o glaciar eterno onde descansou o avião, após deslizar em um "S" invertido, depois do choque na crista da montanha à esquerda de nossa visão, em um dos 4 "cornos" desse topo. Essa pedra pontiaguda, como uma ponta de flecha, foi derrubada pelo primeiro impacto. O milagroso "S" invertido do traçado do avião deslizando na neve parece ser o primeiro milagre, pois desviou de inúmeros obstáculos. Como disse Juan: "um aviãozinho de brinquedo conduzido por alguma mão gigante que desviava de pedras e rochas pontiagudas", estabelecendo esse rastro milagroso naquele dia de terror, desespero e morte. Mesmo assim, a fuselagem se partiu na descida, e os que estavam na traseira encontraram ali seu descanso final. O avião e os primeiros sobreviventes então pararam sobre esse gelo eterno, que estava metros mais alto em relação ao dia de hoje, um dia de verão, data em que conhecíamos esse local. Olhando à frente, o "Monte Seler", parecendo um paredão vertical, além dos já 3.600 metros de onde estávamos, que Roberto Canessa e Fernando Parrado escalaram por 4 dos 10 dias da caminhada incrível e redentora em busca de socorro e salvamento que empreenderam. A propósito, mais um milagre da coleção de feitos incríveis desse grupo. No local da fuselagem somam-se 3.600 metros, enquanto no topo do Monte Seler, também divisa entre Argentina e Chile, são 4.100 metros. Monte Seler foi o nome dado por Parrado à montanha, em homenagem ao seu pai.

Explorávamos, junto com outros visitantes, o local, que possuía uma aura de enorme respeito. Ninguém falava alto; todos, respeitosamente, sussurravam ao conversar e tinham cuidado nos movimentos e nas funções de visita, exploração, fotografia e registros. Alguns se emocionavam e não continham as lágrimas — quem sabe, também familiares e descendentes. A energia do lugar era singular, talvez pela história trágica, de milagre, superação e amor dos sobreviventes; talvez pelo esforço e superação de quem se propõe a desafiar a montanha; talvez pelo superlativo da força cruel e avassaladora do local, que não permite qualquer tipo de vida, embora seja, paradoxalmente, um local incrível e sinônimo da força da vida e do criador. A cruz velha, já enferrujada, simples, entortada pelo tempo, colocada lá em janeiro de 1973, possuía ao redor pedras e "souvenirs", homenagens de quem lá visitava, assim como placas e escritos em homenagem aos falecidos. Ali víamos um pequeno santuário, minúsculo, na ponta de uma crista imune à neve. Um pouco adiante, mais um aglomerado de objetos, porém agora restos da fuselagem — entre estes, a janela do avião e várias outras peças. Um obelisco, patrocinado pelo grupo "Las Leñas", perpetuava os nomes dos falecidos e dos sobreviventes em cada face deste triângulo, como homenagem ao episódio, aos sobreviventes e àqueles que lá tiveram seu descanso eterno. Resolvemos seguir um pouco mais, eu, Artur, Alexis e Bruno, para vermos mais do palco do acidente e dos restos do avião, em especial a roda do Fairchild. Encontramos pedaços de ossos humanos logo perto e milhares de objetos, metal, sintéticos dos bancos e peças metálicas espalhadas, soterradas como lixo. Neste local, qualquer esforço demandava energia de corpos já cansados. O uruguaio Bruno fez uma promessa: a de largar o cigarro. Não creio que tenha cumprido. Concluímos nossa visita, eu e Artur, depositando a bandeira do Rio Grande do Sul ao pé da cruz, em homenagem a um povo que, em 2024, viveu e superou imensos desafios com a terrível e maior catástrofe socioambiental do país, a enchente que abalou a todos de uma ou outra forma e mobilizou o Brasil em solidariedade ao estado do RS. Também eternizamos um vídeo homenageando o povo gaúcho e nosso estado.

Reconhecimento e visita ao sítio do acidente, nosso objetivo neste desafio de três dias, estavam então concluídos. Porém, a empreitada recém havia alcançado metade do intento. Agora tínhamos que retornar. Antes de iniciarmos a descida, nos alimentamos. Juan, nesse momento, fez uma ligação com seu telefone satelital ao uruguaio Gustavo Zerbino, seu amigo e um dos sobreviventes, oportunidade na qual lhe mandamos um fraternal abraço. Também foi um momento incrível. Aproveitei para colher um depoimento de nosso também singular guia Juan, que não segurou as lágrimas ao falar de sua relação com a montanha, que, conforme ele, lhe ensinou novamente a caminhar, pois foi ela o palco de sua reabilitação física, após um acidente que o deixou por um ano em coma e lhe tirou a mobilidade.

Agora era hora de repetir os 15 km desafiantes e insanos que fizemos para subir a montanha, porém em sentido contrário e em declive. Seria sem dúvida mais fácil. Eu estava muito bem, feliz com a conquista, ânimo e forças renovados e multiplicados. E assim foi. A descida foi ótima; a fiz forte e com energia de quem havia começado a caminhada naquele momento. Os cuidados não foram negligenciados e, novamente, os bastões de caminhada foram fundamentais. Artur sairia algum tempo depois e, novamente, nos encontraríamos no cruzamento do Rio das Lágrimas, que dá nome ao vale. A descida, embora cansativa — afinal, completaria 30 km de caminhada dura neste dia —, foi maravilhosa, trazendo um grande sentimento de conquista, dever cumprido, superação e felicidade. Eu me emocionava ao pensar na superação, frente às dúvidas que tinha sobre minha capacidade de realizar; pensava na parceria do meu guerreiro Artur, na amizade e parceria de Adelaide e Davi, que nos esperavam já havia dois dias, sem contato; pensava na grandiosidade deste local e na superação dos sobreviventes, e isso tudo causava um turbilhão de sentimentos e emoções. Na companhia, caminhando alguns metros atrás do meu sempre silencioso guia, lágrimas desciam escondidas pelos meus óculos escuros.

Finalmente, já no final da tarde, alcançamos o acampamento. Artur também já estava instalado e me aguardava. À noite, a comemoração do feito foi regada com um bom vinho e um delicioso assado na parrilla de pedra do local, que mais parecia um altar.

Dormimos o sono dos que merecem, ainda refletindo sobre toda a experiência. Sabia que ainda levaria muito tempo processando tudo isso. No outro dia, os 15 km de retorno e o reencontro com a família.




































Domingo - 19/01/2025

O Retorno

No terceiro e último dia de nossa aventura, acordamos tarde e nos aprontamos para o retorno. Alexis e eu saímos por volta das 9h30, e quase ao meio-dia, Artur e o restante do grupo saíram a cavalo. Após os dois primeiros dias, eu estava à vontade na montanha e me sentia forte. Nosso ritmo foi cadenciado e firme. Logo alcançamos o Vale Atuel e os 3 km que ficam alagados no degelo. Ao longe, avistamos o pequeno acampamento Índio. A ilusão de ótica não revelava a verdadeira distância; aliás, tudo na cordilheira é superlativo, nebuloso e enganoso pela ilusão. Atravessamos o rio e, antes mesmo dos cavaleiros, alcançamos o acampamento Índio. Cerca de 30 minutos depois, chegaram os cavalos, e, orgulhoso, Artur, que cavalgou sozinho e até galopou no leito seco do Atuel. Estávamos cansados, mas felizes. Um assado de linguiça, preparado pelos peões, foi a despedida do Índio.

Após o longo e cansativo rípio, que parecia mais extenso devido à vontade de chegar ao camping e reencontrar Davi e Adelaide, nosso reencontro foi seguido de atualizações sobre as funções e atividades de quem foi e quem ficou. À noite, jantamos novamente na pousada do Juan, onde falamos de nossas peripécias e ao final nos despedimos, já que todos seguiriam seus caminhos e retomariam suas rotinas e desafios. A equipe "Nas asas do condor" cabia a de continuar esta viagem e começar o percurso de retorno ao Brasil

E na recém formada "Sociedade Valle Verde Mercosur", composta por uma família "viajera" Brasileira, um professor Riojano Argentino e um cavaleiro Uruguaio, a promessa de um dia se reencontrarem. 

P.S: E a dor na lombar?: Sim, me acompanhou ainda por muitos dias, assim como foi companhia latejante e mau vinda nesta empreitada ao Vale das Lágrimas.























RELATO DO ARTUR 

Milagre nos Andes

Depois de pensar bastante, decidi que iria fazer o trekking de 3 dias até o local onde o avião uruguaio caiu. Um dia antes da viagem, assistimos ao filme "A Sociedade da Neve" para entender um pouco como foi e para conhecermos melhor a história.


Dia 17/01/2025

Acordamos bem cedo porque hoje subiríamos o Vale das Lágrimas. Depois de comer e pegar nossos preparativos, nosso guia chegou. Fomos até a casa dele para buscar os outros dois rapazes que iriam conosco. Então, finalmente, partimos em direção ao Vale das Lágrimas. Após percorrermos, de acordo com o meu pai, 133 km, sendo 63 km de rípio, já podíamos ver montanhas muito altas. Antes de chegarmos ao local do início da caminhada, paramos em um lugar para pegar os cavalos que levariam nossos companheiros e a bagagem. Só depois de pegarmos os cavalos e comermos um pouco é que finalmente começamos a caminhada.

Mal havíamos começado e já enfrentávamos muito vento, mas deu para seguir tranquilo. Depois de caminharmos um pouco, chegamos ao ponto de travessia do rio. Antes de entrar na água gelada, tiramos nossas botas e colocamos as alpargatas. O nosso guia foi primeiro para mostrar o caminho e nós fomos logo atrás. Usando nossos bastões, nos apoiávamos para não sermos levados pela correnteza. Foi bem tranquilo. Do outro lado, nos secamos um pouco e seguimos a caminhada. Logo chegamos à primeira subida, ainda com vento forte, e subimos bem devagar, deixando os cavalos passarem à frente. Aos poucos, chegamos ao topo. Eu já estava um pouco cansado, mas seguimos.

Muitos pensamentos passavam na minha cabeça, como: "Por que eu vim aqui, meu Deus?". Em certo momento chegamos a um riacho, onde reabastecemos nossas garrafas d’água. Depois de mais algumas horas, chegamos a um rio maior e a uma área de descanso. Lá, comi e fiquei bem melhor. Tivemos que atravessar de cavalo e, para mim, foi muito assustador, pois nunca tinha montado em um cavalo antes, e a subida era bem íngreme. Seguimos a pé, só subindo, e agora eu já estava muito cansado. Pensava: "Pede um cavalo... não, continua, você aguenta". Até que, ao pararmos um pouco, Juan disse que mandaria um cavalo. Fiquei aliviado. Seguimos até o cavalo chegar e então fui sozinho rumo ao acampamento, agora bem mais rápido e podendo apreciar melhor a paisagem. Mas não conseguia descansar em cima do cavalo, parecia que ele podia cair a qualquer momento. Depois de um tempo, fiquei mais tranquilo. Num piscar de olhos, já estava no acampamento. Peguei minha mochila com o Juan, organizei nossa barraca, troquei de roupa porque a outra já estava toda empoeirada e fui descansar e comer um pouco.

Depois, o pai chegou junto com o guia e eu mostrei pra ele um pouco do acampamento. Fomos comer e o Juan preparou uma comida que não sei o nome, mas estava ótima. Depois, nos despedimos dos companheiros e fomos dormir na nossa barraca. À noite fez bastante frio, mas consegui dormir bem.





Dia 18/01/2025

Hoje nós acordamos bem cedo, um pouco mais descansados que no dia anterior, mas ainda doloridos. Nos vestimos e fomos comer. Hoje eu iria a cavalo porque achei que não conseguiria subir andando, já que seriam 30 km no total: 15 km para subir até o local do acidente e 15 para descer até o acampamento. Por conta disso, meu pai foi antes, umas 2 horas mais cedo, e depois partimos.

No caminho, tivemos que atravessar vários rios a cavalo, e as vistas estavam ainda mais lindas. Depois de cavalgarmos mais um tempo, alcançamos meu pai. Após atravessarmos, os cavalos voltaram para buscar ele do outro lado. Continuamos, agora na frente do meu pai, e nesse ponto começou a subida, muito estreita. No início, senti bastante medo, mas, com o tempo, fiquei mais tranquilo.

Depois de um tempo, finalmente chegamos à cruz. Antes, esperamos um pouco o guia e meu pai. Eles chegaram, conhecemos a cruz e o local onde o avião caiu, subimos mais um pouco e tiramos algumas fotos. De lá dava para ver e até tocar nas rodas do avião, mas eu não desci porque o ar já estava rarefeito e o terreno era íngreme. Quando estávamos voltando, vimos uma pessoa chorando – talvez fosse algum familiar de vítimas, não sei. Lá deixamos a bandeira do Rio Grande do Sul, em homenagem ao ano de 2024, que foi muito difícil por causa das enchentes.

Depois disso, comemos mais um pouco e começamos a descer. Meu pai, como sempre, foi primeiro, e logo depois nós também descemos. Agora, na descida, já estava mais tranquilo, com menos medo. Quando chegamos a um rio, paramos para esperar meu pai atravessar. Já era bem mais tarde quando cheguei ao acampamento. Organizei minhas coisas, comi mais um pouco e logo depois fomos dormir para estarmos prontos para o dia seguinte.


Dia 19/01/2025

No último dia, acordamos mais tarde. Meu pai saiu antes, novamente. Precisamos esperar umas 3 horas, pois estavam arrumando o acampamento. Depois de tudo pronto, partimos a cavalo e logo chegamos à última descida, já avistando o local onde começamos no primeiro dia. Parecia perto, mas ainda faltavam uns 4 km. Atravessei o rio a cavalo e, na reta final, consegui até galopar um pouco.

Lá, comemos um assado argentino, que estava muito bom, mas a única coisa que eu queria era voltar pra casa. Para mim, a parte mais longa do trajeto foi do ponto de chegada até o motorhome – parecia interminável. Mas, depois de um tempo, chegamos lá e foi muito bom reencontrar a família e conversar sobre o trekking: como foram as noites, a comida, o cansaço... Também nos despedimos dos companheiros e do Juan, e ainda jantamos juntos na casa dele.



RELATO DO DAVI

Diário Argentina

Na casa do Juan, o guia da expedição para os Andes, jantamos carne com batatas e saladas. A batata estava uma DELÍCIA! Depois do jantar, voltamos ao camping e dormimos. No dia seguinte, bem cedo pela manhã, o guia Juan levou meu pai e meu irmão. Fiquei meio preocupado com eles, mas sabia que iam ficar bem, afinal, estavam equipados para a caminhada e acompanhados de um guia muito experiente. Logo depois que eles saíram, falei para minha mãe: “Quem vai pegar o cavalo primeiro?” Enquanto minha mãe lavava roupas, eu jogava no meu celular e lia livros, mas não saía da minha cabeça: “Será que eu deveria ter ido junto?” Depois, nós fomos tomar banho no banheiro adaptado do camping, mas a água não estava saindo, então voltamos para o motorhome e tomamos banho lá. Depois de tomar banho, a Laura, irmã do guia, veio nos visitar! Minha mãe e ela conversaram um pouco enquanto eu ficava no celular. Depois disso, comemos e dormimos.

Esse foi um dia meio parado. Nós estávamos planejando dar uma volta pela cidade, mas o céu estava ameaçando chuva, então resolvemos esperar para ver o que aconteceria. Minha mãe foi ao mercado logo em frente ao camping; quando ela voltou, me mostrou uma foto do céu totalmente preto, e, para piorar, começou a chover granizo. Ficamos bem preocupados, pensando: “Será que lá em cima também está chovendo?” Com essa chuva, nossos planos de passear pela cidade foram por água abaixo... Passamos o resto do dia no motorhome.



No domingo, finalmente, o céu limpou e à tarde conseguimos passear. Aproveitamos para tomar um sorvete e, como era domingo, grande parte do comércio estava fechado. Mas, por sorte, na volta encontramos uma lojinha aberta e compramos os ingredientes para um bolo de bolacha, porque no dia seguinte seria o meu aniversário. Logo depois de voltarmos para o motorhome, Artur e meu pai voltaram junto do Juan e dos outros participantes da caminhada. Me senti aliviado de ver que eles estavam bem. Juan nos convidou novamente para jantar com eles e, claramente, aceitamos. Lá nos deliciamos com uma saborosa janta para comemorar que todos voltaram bem!

FIM

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